A SAGA DE QUEM PEGOU DOIS BUSÃO E TREM
Família é um negocio complicado. O mercado de trabalho também. Mas quando o capitalismo faz questão de juntar os dois, não tem livro de autoajuda ou artigo no LinkedIn que ajude.
Existe uma fase da vida que você não tem certeza onde se encontra. Ela é pós-faculdade. Não consegue pagar as contas sozinho, não quer abraçar o capeta do capitalismo mesmo fazendo parte deste inferno. Não sabe se quer continuar estudando, nem que área quer estudar ou se quer se especializar em algum nicho do mercado. Tudo que você sabe é que agora é um profissional formado, com mais conhecimento que o senso comum, espera-se. É nessa época que você descobre como isso não vale nada.
Cada site de busca de emprego é uma decepção diferente. Todos parecem procurar uma mão de obra minimante qualificada por um salário que mais parece um favor. O Empregador Bonzinho™ que está lhe dando uma grande oportunidade de aprender e de se inserir no mercado. Faz teu nome, eles dizem.
Isso se chama estágio obrigatório, querido Empregador Bonzinho™. E sim, todos passamos por ele.
Voltando à família e ao mercado. À esta soma temos o Empregador Bonzinho™.
O Empregador Bonzinho™ reclama do profissional contratado. É fraco, desatento e que, mesmo formado, não traz os resultados que a empresa tanto sonhou ao bater o martelo e dizer "vamos gastar e contratá-lo". Ao ser perguntado sobre o salário, o Empregador Bonzinho™ responde: 500 reais.
Bom... Não sei se sequer precisa discorrer sobre quão revoltante é saber disso.
Não sou um exímio em contas, mas não precisa de muito para entender que R$500,00 está bem abaixo do valor MÍNIMO estipulado por LEI e ajustado anualmente. Mais especificamente, R$437,00 a menos. Quase o dobro do valor recebido por este funcionário.
Um profissional formado, mesmo que em universidade pública, gastou muito mais que R$500 ao longo de sua graduação, esperando viver dignamente depois de anos de dedicação e abdicação. Mas o que escutam dos grandes Empresários Bonzinhos™ é que não devem ser exigentes com o salário, o mercado não os conhece, não sejam pedantes, não é mesmo? Em vez disto, aceite esta grande generosidade em forma de emprego. Faz teu nome, mostre-me que és capaz de valer um salário mínimo um dia.
É possível esperar que um funcionário que recebe migalhas no lugar de um salário que cubra uma vida digna trabalhe de forma brilhante? Por mais que o Empregador Bonzinho™ esteja pagando, é certo ele esperar um serviço excepcional pagando tão pouco? É anti-ético um servidor fazer um trabalho meia-boca por não estar recebendo devidamente? Para todas estas perguntas eu só consigo pensar na frase "nós fingimos que trabalhamos e eles fingem que nos pagam."
E de quem é a culpa nisso tudo? Empresário Bonzinho™ que aproveita a insegurança dos recém-chegados para explorá-los ou dos que aceitam micharia por medo de não conseguirem algo melhor? Ou ainda, a culpa é de um sistema que te seduz a consumir mais, comprar mais, ser mais, se sobressair e por consequência querer ganhar mais?

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