POR QUE UMA GAROTA MORTA MENTIRIA?

by - abril 04, 2017

Nota do blog


Eu não me sentia assim desde o primeiro episódio de My Mad Fat Diary. Todas aquelas emoções e identificações que acontecem quando você se depara com um produto midiático que não vê suas aflições e problemas da época de adolescente como fúteis e produz com, certa qualidade, tato que o público jovem também merece.

Depois de muita espera para os fãs do livro ou de muita curiosidade para aqueles que não leram, a Netflix liberou a primeira temporada de 13 Reasons Why na última sexta-feira (31). A série, produzida por Selena Gomez e Tom McCarthy, nos apresenta à Cley Jensen (Dylan Minnette) que recebe uma caixa com fitas gravadas por sua amiga/crush Hannah Baker (Katherine Langford) detalhando sua vida e os motivos que a levaram cometer suicídio. Essas fitas chegam até as mãos de Clay com instruções de ouvi-las e repassá-las ao próximo da lista. Alternando o ponto de vista entre os dois protagonista, a narrativa nos permite entender o porquê daqueles presentes na lista e como a menina se sentiu em relação a eles.

Ele tenta entender e ela tenta explicar. Talvez por isso, não temos um diagnósticos preciso sobre a saúde mental de Hannah, o que pode ser um ponto negativo. Sentimos todas as dúvidas de quem escuta as fitas e já não pode fazer mais nada e toda a dor de alguém que está sofrendo e não sabe o que fazer enquanto as grava. 

(cuidado que o texto contém spoilers)

A cada play dado, conhecemos a angústia que é ser uma adolescente tentando se encaixar e se encontrar. Conhecemos ainda mais como é ser mulher dentro de uma sociedade que, em pleno 2017, controla como ela deve existir, controla seu corpo e sua sexualidade.

Os problemas de Hannah começam quando Justin Foley tira uma foto da menina em um momento de descontração dos dois, mostra para os amigos e, fora do contexto, ela se espalha pela escola. O slut-shaming corre solto, a menina é julgada, isolada e vira piada entre todos os alunos. Então, depois com a lista feita por Alex sobre a aparência das meninas do colégio, todos passam a ter uma opinião sobre Hannah. A partir daí, a jovem perde sua humanidade perante os "colegas" e se torna um objeto que pode ser tocado e usado como e quando quiserem

Os acontecimentos na vida de Hannah continuam difundindo sua "reputação" e como ela foi construída, dando permissão para as pessoas continuarem a tratando como um objeto desumanizado e sexual. Reputação essa que não existiria se a menina não estivesse inserida em um sociedade que ainda vê a sexualidade feminina como um tabu e o corpo feminino como um objeto.  A garota vai se fechando e se sentindo diminuída.

Agora vamos praticar a empatia - tão difícil para algumas pessoas - e nos colocar no lugar de Hannah. Imagine o quão difícil deve ser lidar com tudo isso em uma época que estamos descobrindo nossos corpos, nossa sexualidade, construindo nossa identidade e tentando entender quem somos e qual nosso papel no mundo.


Hannah tem traumas acumulados, já se sente vazia e sozinha. Sente-se como um problema na vida daqueles ao seu redor, quando é violentada e estuprada por Bryce. Diante dos nossos olhos, em uma cena pesada e dolorosa de assistir, vemos Hannah perder o resquício de humanidade e vida que lhe resta. Ela perder o senso de si própria, sente-se envergonhada, violentada e morta. Hannah não consegue confiar em mais ninguém e enxergar na não-existência a única solução.

A menina descreve todos esses acontecimentos e sentimentos nas fitas e, ainda assim, é acusada de fazer tudo isso para chamar a atenção e tem sua verdade questionada. Quantas vítimas de abuso de qualquer tipo ou mulheres que tem sua intimidade violada são expostas, questionadas e julgadas? Quantas meninas e mulheres na situação de Hannah também tiraram a própria vida depois de um grande trauma? E quantos comentários nessas tristes notícias são publicados sem o menor pudor dizendo que a moça pediu por tudo isso? Mas, "por que uma garota morta mentiria?"


Muitas meninas e mulheres tem sua intimidade vazada ou são abusadas, violentadas e estupradas e não conseguem falar sobre ou denunciar por medo, vergonha e insegurança. Elas perdem a confiança no outro e no caso da série, perde a confiança no adulto que não leva seus problemas e agonias a sério. O que aconteceu com Hannah - e com Jessica - não é a exceção, não é raro. É corriqueiro e é ridicularizado em grupos de mensagem e redes sociais.

Diferente da protagonista, Jessicaa criou mecanismos de defesa para sobreviver como vítima de estupro, enquanto Hannah, depois de tudo que lhe aconteceu, não conseguiu fazer o mesmo. "Eu senti que já estava morta", ela descreve em uma de suas últimas fitas. E por isso, Hannah decidiu não permitir que ninguém mais a machucaria daquele jeito.

"Alex, Tayler, Courtney e Marcus... eles ajudaram a destruir minha reputação. Depois Zach e Ryan destruiram minha alegria, Bryce Walker destruiu minha alma"  Fita 7, lado A.
Se por um lado temos temas pesados e complexos, por outro, temo uma narrativa simples que se estendeu mais do que deveria da forma que foi construída. Afinal, nada mais lógico que 13 porquês - 13 capítulos, o que causa um desgaste na narrativa e deixa mais evidente os diversos problemas de roteiro presentes nela. Alguns personagens e arcos parecem estar ali apenas para preencher os 13 capítulos. Apesar disso, a série não nos poupa das cenas de estupro, violência e do suicídio. Seu papel é fazer refletir sobre nossas ações e palavras e como elas podem afetar com quem nos relacionamos. Não sabemos o que se passa com o outro e como tudo - padrões, expectativas, julgamentos e fofocas - pode ser bem mais pesado nos ombros de uma jovem mulher. É desesperadora, dolorida e pesada. Não está ali para fazer apologia ou romantizar o suicídio, mas também não está ali para discuti-lo. É uma grande faca de dois gumes.

13 Reasons why
Metacritic (77)  -
IMDb (9,1) - 
Rotten Tomatoes (95%) -

 


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